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[16.3.2007] FOSDEM: o micro-cosmos do SL/A
A FOSDEM (Free and Open Source Software Developers European Meeting), conferência de Software Livre / Aberto que decorreu em Bruxelas nos dias 24 e 25 de Fevereiro, não é apenas a maior. É também a melhor conferência europeia sobre esta temática.
Tradicionalmente, e não fosse decorrer na terra da boa cerveja, o evento começa na véspera com uma Beer Party. Se se estranha 200 programadores de SL/A no 2º andar de uma cervejaria da Grand Place, então o auditório que no dia seguinte acolheu 1.500 participantes é uma imagem única.
A primeira manhã dos dois dias foi ocupada com as apresentações mais mediáticas. Patentes de Software, OLPC e Java.
O OLPC (One Laptop Per Child) é um projecto desenvolvido por Nicholas Negroponte que pretende disponibilizar portáteis a 100 dólares para os países menos desenvolvidos.
Se o espírito filantrópico dos americanos coloca qualquer europeu céptico, o OLPC é certamente a excepção.
A filosofia é simples: coloque um portátil nas mãos de uma criança, por mais pobre que ela seja, e ela saber-lhe-á dar uma boa utilização. Mas não seria melhor dar-lhe(s) primeiro livros? Ou comida? Então e os pais não venderão o portátil? E nos muitos sítios em que não existe electricidade?
Se as questões acima lhe ensombraram o raciocínio é porque definitivamente é português. Nós somos assim. Teóricos que gostam de colocar os potenciais problemas à frente da potencial solução.
Um bom exemplo desta falta de pragmatismo são as sucessivas reformas do ministério da educação na área das TIC. Até simpatizo com a ministra, ex-presidente do conselho científico da minha universidade, mas é surpreendente a inépcia de liderança dos responsáveis desta área – o CRIE. Inépcia. Foi exactamente esta a palavra que utilizei há 2 anos nesta coluna para os caracterizar noutra ``excelente iniciativa''. Apenas três anos após a introdução da disciplina no 9º e 10º ano, já a planeiam retirar com a justificação de que os alunos precisam de TIC em todas as disciplinas de forma ``transversal''. Desconfiem de quem usa a palavra ``transversal''.
O OLPC comprova que os americanos são muito mais pragmáticos. Naturalmente que um portátil de 100 dólares irá ter alguns desafios.
Como carregar a bateria? Com investigação. Desenvolvendo um sistema que puxando durante 10 minutos uma corda de tracção (semelhante à ligação do motor do barco) consegue fornecer energia para uma hora de utilização do portátil.
Como ter Internet em todos eles? Com investigação. Desenvolvendo um novo tipo de rede WiFi em que cada computador terá uma placa de rede com 1 km de alcance, sendo ele próprio um Access Point para os restantes (mesh networking).
Como olhar para o monitor se a sala de aula for no exterior sob um sol escaldante? Com investigação. Desenvolvendo um novo tipo de display.
Jim Gettys foi à FOSDEM mostrar como o SL/A – Linux, ambiente gráfico, etc... - está a ser utilizado na construção dessa visão. E o último slide dele foi ``Obrigado''. Obrigado por nos dotarem do software que precisamos para que este projecto aconteça.
Mas o FOSDEM é mais do que estas apresentações. São as chamadas ``developer rooms''. Durante os dois dias cada equipa de desenvolvimento de projectos, como Debian, KDE, Gnome, OpenSuse ou Fedora, ocupa uma delas.
Quando tive algum tempo livre da sala de Research – onde apresentei o trabalho da Caixa Mágica na área de meta-instaladores – visitei algumas.
Cada uma era representativa da heterogeneidade dos programadores de SL/A. Diferentes nacionalidades. Diferentes aspecto físicos. E uma meritocracia baseado no real valor de cada um.
Saímos de Bruxelas sentindo que tínhamos estado numa conferência imperdível, mas com algum sentimento de pena por termos sido os únicos portugueses presentes. A nossa localização geográfica periférica não pode ser desculpa. Temos de nos afirmar através da nossa qualidade.
Para além do 6º sentido informático com que a disciplina de TIC dotou os alunos de todas as áreas disciplinares, quantos programadores, quantos bons informáticos, não terão nascido nestes últimos três anos nessas aulas?
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