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[27.7.2007] A norma Office da Microsoft conseguirá o voto português?


A melhor explicação do conceito de ``Norma'' que conheço foi apresentada por António Coutinho, da Universidade do Minho.
Para explicar a necessidade de normas a uma audiência de alunos, o António levava um parafuso e um saco de porcas de tamanho aproximadamente igual. De seguida, pedia à Audiência que tentasse achar a porca certa. Tarefa difícil apesar de mesmo hoje existirem tamanhos standards para parafusos. Se não existirem normas exactas, é isso que que passa entre o software de diferentes fornecedores: não encaixam bem uns nos outros.
A necessidade de normas na indústria informática, isto é, directivas que indiquem qual o formato exacto em que a informação deve ser trocada entre aplicações, leva-nos para o cenário dos primórdios da informática. Nessa altura, os fornecedores criavam silos para prender os clientes. Dado as aplicações não comunicarem entre elas, tudo teria de ser comprado ao mesmo fornecedor para comunicar sem problemas.
O formato em que os documentos de Office (ficheiros com texto, folhas de cálculo, apresentações,...) são guardados é essencial para garantir que apesar de ser feito numa aplicação, ele pode ser utilizado noutras.
Com esse intuito, foi formado um consórcio de empresas e organizações designado por ODF (Open Document Format) Alliance e que visou desenvolver um standard internacional nessa área. Essa aliança integrou na sua origem os grandes da indústria informática como IBM, Sun e Microsoft.
O formato ODF foi em Maio de 2006 aprovado como standard internacional ISO/IEC 26300 para documentos Office.
Antes disso, a Microsoft tinha abandonado o consórcio para criar o seu próprio standard, o Office Open XML (OOXML). Pôs então uma máquina em andamento para que o seu formato fosse igualmente considerado standard. Para tal, tem de ser aprovado pela maioria dos comités locais ISO, tendo todos os comités o mesmo peso na votação final.
Em Portugal, a entidade acolhedora da Comissão Técnica que irá avaliar a norma é o Instituto de Informática.
A primeira reunião desta comissão foi divulgada em circuito fechado por um grupo de parceiros Microsoft e pouco mais. O objectivo seria despachar o processo.
Para tal, o elemento da Microsoft presente propôs-se e foi aceite para presidente da Comissão e marcou-se uma segunda reunião para a aprovação da norma. Um ou outro presente divulgou externamente o que se se estava a passar e na segunda reunião um conjunto alargado de empresas não-alinhadas (como a IBM, Sun, Caixa Mágica,...) propôs-se integrar a comissão. A IBM e a Sun foram impedidas com o argumento que a sala não tinha dimensão suficiente apesar de estarem presentes elementos observadores sem direito de voto.
Foi então marcado para dia 31 de Julho a votação final.
Não será o resultado da aprovação ou não pelo ISO/IEC que impedirá o MS OOXML de vingar como standard de facto. É inevitável pois a Microsoft detêm uma quota de mercado muito elevada.
Contudo, a não aprovação da mesma seria utilizada pela Administração Pública de todo o mundo para suavemente introduzir o OpenOffice. Seria ainda um factor que pressionaria a Microsoft a procurar no futuro estabelecer normas com outros actores no mercado e não apenas por ele própria, o que conduz aos silos inevitáveis. Por outro lado, dado já termos um standard, a aprovação de um segundo é redundante. Por fim, o OOXML sofre de vários defeitos técnicos que dificultam uma implementação aberta como a do OpenOffice.
Por vezes, a geração espontânea de protocolos do Governo com a Microsoft e o poder desta levam a que tudo já nos pareça normal.
Mas não nos enganemos. Não é normal o presidente da comissão técnica ser um elemento da empresa que vai ser sujeita a avaliação. Não é normal recusar-se a presença à Sun e à IBM sob a desculpa da sala não ter cadeiras.
Se as quatro razões técnicas anteriores não forem suficientes, Portugal tem uma razão extra para votar contra.
A razão extra que temos é demonstrar que o nosso país não é a ``república das bananas''.
E esta é uma razão muito forte . Espero que vença no dia 31.


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2007-09-24

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