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[4.3.2005] Stallman e Sampaio: 1 grau de separação
Se existe uma teoria científica que fascina qualquer mortal é a teoria dos ''Pequenos mundos''. Esta teoria, inicialmente proposta em 1967 pelo psicólogo Stanley Milgram, afirma que entre nós e qualquer outra pessoa do globo existem apenas 6 graus de separação.
Isto é, através dos meus contactos chego a um número X de pessoas. Através dos conhecimentos dessas pessoas chego a um número ainda maior de outras pessoas e assim por diante até ao sexto grau em que atingiria todos os habitantes do planeta.
Sendo matematicamente fácil provar esta teoria, a mesma deu origem a uma peça da Broadway, inspirou o filme ''Six Degrees of Separation'', em 1993, e mais recentemente aos sites ''Orkut'' e ''LinkedIn''.
Penso que o Dr. Jorge Sampaio dispensa apresentações mas Richard Stallman porventura já não é um nome familiar de todos.
Stallman é o responsável da GNU e, desde 1984, líder do movimento de Software Livre (''Free Software'').
Ao contrário de Linus Torvalds ou do movimento ''open-source'', Richard Stallman defende que o direito de aceder à fonte do software e poder alterá-la sai do mero plano tecnológico e entra no plano político ou ideológico.
Defendendo por vezes soluções mais radicais, é seguido por milhares de programadores e odiado por tantos outros.
Contudo, é consensual a admiração que merece pelo trabalho desenvolvido em torno das ferramentas GNU (emacs, gcc,...) e pela proposta da licença GPL, hoje utilizada na maioria dos projectos de Software Livre / Aberto (SL/A). Sem as ferramentas GNU, o desenvolvimento do Linux teria sido impossível e muito do software incluído nas distribuições de Linux não existiria.
Tinha alguma dificuldade em perceber a razão da polémica em torno da sua figura até o conhecer pessoalmente.
Em Outubro de 2003, no âmbito de duas conferências promovidas pela ANSOL no ISCTE e no IST, tive oportunidade de assistir às suas intervenções. Stallman é um grande comunicador e, apesar de não ser carismático no sentido tradicional da palavra, consegue empolgar a audiência com ideias frescas sobre onde estamos e para onde devemos ir.
Contudo, tem um feitio impossível. É arrogante e tem muita dificuldade em respeitar as ideias e valores dos outros. Trata mal as pessoas que o convidam e ainda pior as pessoas que o abordam.
Uma pequena história para ilustrar o seu feitio. Depois de passar uma hora a descrever as virtudes do Software Livre terminou a conferência aplaudido de pé por uma audiência que preenchia totalmente a lotação das salas e amontoava-se nas entradas e corredores. Após esse momento, um grupo de jovens abordou-o no sentido de pedir um autógrafo. Eu estava a assistir a esse movimento com uma jornalista de um jornal diário e percebemos que alguns dos jovens saíam de mãos vazias, enquanto outros remexiam as carteiras. A nossa curiosidade foi aumentando até que nos deslocámos até à mesa onde ele estava. Percebemos então que, pasme-se!, estava a cobrar 10 Euros por cada autógrafo. Claro que foi bastante difícil explicar à jornalista, nova nestas coisas do SL/A, porquê é que o Software era Livre mas os autógrafos eram pagos. A razão - que eu discordo - é que esta é uma forma de financiar a FSF e a GNU. Duvido que sejam 50 ou 100 euros que façam a diferença, mas são certamente esses 50 ou 100 euros que afastarão esses jovens de admirar e querer saber mais sobre o SL/A e sobre a figura de Stallman.
A referência a Stallman vem a propósito de um seminário que decorrerá em Lisboa, no próximo fim-de-semana, promovido pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, e subordinado ao tema ''A sociedade em rede e a economia do conhecimento''.
O seminário, organizado pelos professores Manuel Castells e Gustavo Cardoso (ISCTE), apresenta um programa com intervenções muito relevantes. Em particular, não poderia deixar de destacar o painel ''Tema 3: Os bens públicos da Sociedade em Rede: Open-source, Redes Peer-to-peer, Inovação e o Redefinir dos Direitos da Propriedade Intelectual''.
Este painel vai contar com a participação de Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade de Stanford.
Lessig é o oposto de Stallman: barbeado, académico e bem dentro do ''sistema''- foi acessor de um famoso juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos.
Contudo, ambos tem algo em comum: partilham a ideia de que o SL/A e o Copyleft é o modelo que melhor serve o interesse individual e, em simultâneo, o interesse público. Sobre Stallman, Lessig escreveu: '' Todas as gerações têm um filósofo. (...) A nossa geração tem um filósofo. Não é um artista ou um escritor. É um programador.''
No sábado, quando o Presidente da República abrir o seminário e cumprimentar Lessig estará a um grau de Richard Stallman e vice-versa. A quantos graus estará de Bill Gates?
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