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[18.3.2005] Não batam mais na Microsoft!
Sábado à tarde. Um auditório pequeno com 90 lugares. Uma vista lindíssima sobre os jardins do CCB.
A elite internacional de investigadores que estudam a Sociedade de Informação, na sua perspectiva sociológica e económica, reunidos debaixo do mesmo tecto: Manuel Castells, Mitchell, Lawrence Lessig, Liikanen,... Presidentes e directores gerais das maiores empresas portuguesas de TI, banqueiros e patrões da indústria, o líder da UGT e da SGTP. Poder político: deputados, antigos e actuais ministros. O Presidente da República.
O objectivo: discutir a Sociedade de Informação, e o Software Livre / Aberto (SL/A) incluído, sob o alto patrocínio de Jorge Sampaio. Confesso que quando recebi o convite pensei que o Presidente iria abrir o seminário e voltaria para o encerramento. Puro engano. Passou o fim-de-semana a assistir contribuindo com ideias e servindo de dinamizador à discussão. Conseguiu ainda uma outra coisa surpreendente que foi colocar esta gente toda a falar de Linux, de KDE, de OpenOffice. Isto num painel dedicado ao SL/A que contou com a participação de Lawrence Lessig abordando a liberdade de utilizarmos conteúdos digitais produzidos por outros - não fosse ele o ''pai'' da Creative Commons, com Marcelo Branco a falar da realidade brasileira e António Coutinho a falar do Software Livre em geral.
Foi naturalmente uma oportunidade histórica para transmitir algumas das soluções que preconizamos junto dos líderes das várias áreas da sociedade portuguesa. Como balanço, pode dizer-se que correu bastante bem. Lessig foi brilhante e explicou de forma única a essência da licença Creative Commons e como esta está a ser utilizada pelo mundo fora.
Contudo, o painel podia ainda ter corrido melhor se as apresentações e as intervenções do público não atacassem tão fortemente a Microsoft utilizando alguns argumentos demagógicos e que não subscrevo.
Entre outras, Marcelo Branco afirmou que ''O custo de uma licença de Office é o equivalente a 60 sacas de soja''. Esta é daquelas frases fortes que soam bem no Telejornal da TVI mas que podem ser interpretadas como demagogia e facilmente refutadas pelo director-geral da Microsoft também presente. Bastava-lhe afirmar, por exemplo, que o custo do Ms Office é equivalente a 60 sacas mas a produtividade gerada pelo mesmo para o estado e empresas é equivalente a 600 sacas. Ou seja, um saldo de 540 favorável ao Office. Por outro lado, facilmente concluiríamos que um dos charutos fumado no intervalo para café era capaz de matar a fome a uma aldeia de África. E não é por isso que se assistiu à caça dos ''puros'' pelos corredores do CCB.
À medida que o SL/A vai obtendo maior projecção mediática e importância social temos de aprender a ser responsáveis.
Não é que as sacas de soja não tenham importância. É a forma como o encaramos. O que deve ser dito é que o Linux através da sua robustez e segurança permite produzir eficazmente mais 1000 sacas de soja, as quais se devem somar às 60 que se poupa em licenciamento de outras soluções. Ou seja, apontando soluções construtivas e positivas.
E nós temos essas soluções . Temos um Linux robusto e um KDE muito intuitivo. Temos o Apache a liderar o mercado de WebServers e o OpenOffice como ferramenta de produtividade imbatível. Temos a comunidade de programadores e utilizadores mais competente do mundo.
É por isso que digo: não ''batam'' na Microsoft mas nos projectos e empresas que trabalham na esfera do SL/A por não terem ainda conseguido uma maior penetração no mercado português. ''Batam'' na Caixa Mágica. ''Batam'' no autor destas linhas.
Com isto não digo que devemos fechar os olhos às acções de algumas empresas multinacionais que muitas vezes agem de forma pouco ética ou mesmo ilegal. Devemos contudo fazê-lo com responsabilidade e argumentos racionais que é o terreno que mais nos favorece.
Em conclusão, o painel sobre SL/A foi muito positivo e terá um impacto inquestionável em decisões futuras dos presentes. Mas temos de aprender com a experiência.
Porque existem boas noticias e más noticias.
As más notícias é que provavelmente não vamos ter a hipótese de falar novamente sobre Linux e OpenOffice directamente a patrões e sindicatos no próximo ano. Não vamos ter a hipótese de ter o Castells e o Lessig em Portugal nos próximos 5 anos. E é muito improvável que tenhamos um Presidente da República com a abertura e empenho de Jorge Sampaio nos próximos 20 anos.
Por outro lado, as boas notícias é que temos, mais do que nunca, oportunidades únicas despoletadas por este evento de fazer bem aquilo que sabemos: programar software open-source, vender serviços sobre SL/A, integrar sistemas e ensinar Linux. E as sacas de soja virão por arrasto.
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