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[8.4.2005] Há muitos anos atrás, num longínquo reino...
No inicio da década de 90, muitos de nós experimentaram uma sensação semelhante: instalar o DOS a partir de 3 disquetes num 286 ou 386sx.
Uma sensação de estar a fazer algo tecnologicamente desafiante e que provavelmente apenas uma em cada 10 mil pessoas sabia e alguma vez o tinha feito. Para além disso, havia o sentido de descoberta e de conhecimento de uma nova realidade que tornava a vida mais interessante, produtiva e divertida.
Hoje isso já não acontece. Quando se instala o sucessor do DOS sabemos que o que teremos no final da instalação não é de todo uma boa experiência. Teremos um sistema bastante fácil de utilizar mas que rapidamente se torna vítima de vírus e spyware. Um sistema bastante fácil de utilizar mas cujo valor de licenciamento não se compara ao custo do DOS de outrora.
Sempre que começamos o desenvolvimento técnico de uma nova versão de Caixa Mágica, processo que consome 12 meses de uma equipa de 15 pessoas, temos uma agenda escondida que não partilhamos com os nossos colegas da parte comercial / administrativa.
Isto é, para além do desenvolvimento de uma robusta e produtiva solução técnica que só por si convença o cliente e faça as delícias dos nossos comerciais pelas novas funcionalidades, temos de forma consciente ou inconsciente o desejo de reabilitar a utilização de sistemas operativos. Reconciliarmo-nos com o utilizador.
E isto acontece se fizermos um sistema que ultrapassa as expectativas de quem o comprou ou fez download. Onde seja simples instalar software. Onde seja simples configurar o hardware.
A Caixa Mágica Desktop 10 Pro realizou-nos nesse sentido. Não porque seja o sistema perfeito. Esta versão tem erros e limitações como qualquer obra de engenharia feita pelo homem. Mas porque temos falado com as centenas de ``beta testers'' que experimentaram a versão preliminar e o sentimento de quem a instala é semelhante à de outros tempos.
Também há naturalmente desilusões. Por exemplo, existe um tipo de utilizadores que espera instalar a Caixa Mágica e nesse mesmo instante ficar com os periféricos configurados e saber fazer todas as operações de administração tal como fazia no Windows. E isso simplesmente não é possível nem desejável. Significaria que o Linux era um clone de outro sistema com as suas vantagens e desvantagens.
Assim, é necessário ter a consciência que instalar o Linux exige que, tal como há 15 anos atrás, se aprenda novamente algumas operações básicas de administração. A utilização só por si é intuitiva e já não requer grande esforço de integração.
Por outro lado, não fui exacto em relação ao número de pessoas que está envolvida nesta versão 10 da CM. Não são 15 pessoas mas 150 mil pessoas. Ou seja, o número de pessoas que se calcula que colabore ou tenha colaborado em projectos de Software Livre / Aberto (SL/A). De facto, internamente desenvolvemos os instaladores, configuradores e empacotamos o software de terceiras partes, mas a grande quota de trabalho e mérito é devida aos milhares de projectos que produzem o software incorporado na CM (Kernel, GNU, OpenOffice, KDE,...).
Esse desenvolvimento tem um enorme potencial que está a ser utilizado em países por todo o mundo.
Por cá, o novo governo aposta no choque tecnológico porque sentiu que é uma forma de revitalizar transversalmente todos os sectores. E não creio que seja através da mera aquisição de tecnologia estrangeira em detrimento do que é produzido nos nossos centros de inovação que essa revitalização ocorrerá.
Existem alguns relatórios que defendem que entre as profissões mais stressantes estão as de instrutor de condução, polícia e jornalista. Não menosprezando as anteriores queria acrescentar os programadores e responsáveis pelo desenvolvimento de software.
Na Caixa Mágica sentimos cada entrega do master dos CD / DVD à fábrica que o irá reproduzir com um misto de ``amor'' e ``ódio''. Amor porque termina o período infernal de 15 dias que antecede o fecho da versão. Nesse período trabalha-se praticamente a dois turnos: o normal e o after-hours. O turno que termina às 3 ou 4 da manhã comunica com o que entra às 9:00 por email reportando os problemas encontrados e o trabalho desenvolvido. As baterias de testes chegam a ser feitos em 8 máquinas em simultâneo com grelhas que tentam testar todas as variantes.
A entrega do master também se reveste de algum ``ódio'' porque é de certa forma inevitável pensar que conseguíamos melhorar este ou aquele aspecto se tivéssemos mais três dias.
A Caixa Mágica 10, versão desktop e servidor, visa dar o seu contributo para o desenvolvimento equilibrado na nossa sociedade. Não é o único contributo. Existem empresas, universidades, institutos e ONGs/IPSS que o fazem no dia-a-dia e sem grandes alardes.
Contudo, sabemos que por um sistema operativo ser transversal a todos os sectores, existem bastantes olhos postos no trabalho que desenvolvemos.
E, reciprocamente, existem desafios que não recusaremos.
Não recusaremos apoiar grandes empresas a fazer migrações de parques de desktops. Institutos públicos e ministérios a repensar a sua estratégia. PMEs a reequilibrarem o seu orçamento de TI. Empresas de informática a reverem os seus modelos. E todos todos nós em casa a sentir a ``adrenalina'' de instalar uma nova versão, contactar com uma nova tecnologia.
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