Bits de Mudança

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[13.5.2005] Adquirir um portátil: missão impossível

A semana começou com uma tarefa relativamente simples: adquirir um portátil. Não para mim, mas para uma colega.
Optar por um portátil em detrimento de um desktop é hoje quase inevitável para funções que exijam alguma mobilidade. Os preços desceram e hoje os portáteis são acessíveis a preços abaixo de 1000 euros.
A primeira questão era optar por linha branca ou marca. Existem no mercado assembladores com oferta muito forte de linha branca.
Em função dos preços baixos e competitivos que algumas marcas apresentam, optou-se por esta segunda hipótese.
Das 4 ou 5 marcas que mais portáteis vendem, o objectivo era encontrar um modelo que não ultrapassasse a barreira psicológica dos 1000 euros e oferecesse capacidade de computação e disco. Mesmo que não tivesse a última moda de design e gadgets de topo de gama.
Após a selecção, faltava a aquisição.
Logo na primeira visita a uma loja de informática, todas as marcas estavam presentes pelo que foi relativamente simples identificar o modelo.
Contudo, esse modelo incluía o ``Microsoft XP Home edition''. O modelo do lado, de uma marca concorrente, incluía o ``Microsoft XP Professional''. Todos os 17 portáteis em exibição incluíam obrigatoriamente um sistema operativo da Microsoft.
Por momentos, e por ignorância minha, senti-me num episódio da Quinta Dimensão. Tinha passado há 5 minutos pela prateleira do software e tinha 3 alternativas: Linux Caixa Mágica, MacOS X e Microsoft. Chegava à secção de hardware e apenas tinha uma.
O passo seguinte foi obter ajuda de um especialista, o vendedor de serviço.
Confesso que tenho azar com os colaboradores das lojas de informática a que tenho ido. Apanho sempre com algum que começa literalmente a inventar sobre o que não percebe.
Quando perguntei à pessoa em questão se era possível comprar um portátil HP, Fujitsu/Siemens, Toshiba, Asus, Acer, Dell ou Sony sem sistema operativo incluído, ele respondeu-me que não. E reforçou com duas razões. A primeira porque se eu não o quisesse, que o apagasse, já que ele era oferecido. A segunda que não podiam porque era obrigatório por lei.
Explicar-lhe que nada era oferecido e que pelo Microsoft XP estaria a pagar 10% a 20% do preço do portátil até foi fácil. A parte difícil foi explicar-lhe que não existe nenhuma lei que obrigue a que um PC saia com sistema operativo pré-instalado.
De facto, se não houvesse uma lei, porque será que a realidade demonstra que não existem portáteis de marca sem SO previamente instalado?
Quem está dentro desta área sabe que há uma terceira razão: os Windows OEM são a ``cash cow'' da Microsoft e, segundo a mesma, a única forma de evitar a pirataria doméstica. A Microsoft fez individualmente um acordo com todos os principais fabricantes que comprometem-se a vender exclusivamente com Windows. A troco disso recebem a margem da venda do software. Se todos o fizerem, nenhum fica a perder.
Fundamentalismo e liberdade (de escolha ou de expressão) são aparentemente conceitos diametralmente opostos mas que facilmente se tocam. A legalidade move-se suavemente entre um e outro conceito, dependendo da cultura ou a sociedade em que estamos inseridos. Numa determinada sociedade, a legalidade está mais perto do fundamentalismo. Noutra sociedade, mais perto da liberdade de escolha.
Somos hoje obrigados a comprar Windows em portáteis não por uma questão de legalidade. O mais ingénuo cidadão compreenderá que justiça preventiva que interfira na liberdade individual é um dos mais graves atentados na nossa sociedade.
A verdadeira razão é de cartel. Cartel horizontal - formal ou informal- entre os produtores de hardware e vertical, entre o fornecedor quase monopolista do SO e os mesmos produtores.
Um cartel é um cartel e, por menos, já a Autoridade para a Concorrência fez rusgas à administração da Portugal Telecom ou investigou as gasolineiras.
Não acredito contudo que seja o estado a interferir para desfazer a concertação.
A mesma vai ruir por dentro. Basta que dois ou três desses produtores ofereçam a possibilidade de não ir incluído o Sistema Operativo e os outros terão automaticamente um preço 10% a 20% superior. Ou seja, nada competitivo.
A Dell e a IBM já o fazem para mercados empresariais em alguns pontos do globo e é inevitável que isso aconteça no futuro em outros locais.
Espero nessa altura encontrar-me com o funcionário da loja que me atendeu. E da boca dele saber que afinal a lei foi revogada. Já é possível comprar um portátil e poder escolher o sistema operativo que nele instalo.





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2007-09-24

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