Bits de Mudança

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[11.11.2005] Bohemia - a cerveja closed source do eng. Sobral

Chimay. A blanche de Hoegaarden. Leffe. Três marcas de cerveja e três boas razões para a Comissão Europeia estar sediada em Bruxelas e obrigarem-nos a viajar para o frio e húmido centro da Europa.
Obrigado a estar presente numa auditoria a um projecto europeu open-source tenho como única consolação o fim do dia nas quentes cervejeiras (brasseries) com produção própria.
Mas não só na Bélgica se produz boa cerveja. Há duas semanas tive a oportunidade de fazer uma visita guiada pelo responsável pela investigação de novos produtos, o eng. Sobral, à fábrica da Central de Cervejas de Vialonga.
O sucesso em que se tornou a cerveja Bohemia - para os amigos, a Ruiva - não é fruto do acaso. O eng. Sobral está há 30 anos na empresa e demorou três anos a desenvolver a fórmula ganhadora. Com ele fiquei a conhecer as várias fases necessárias à produção: a transformação da cevada em malte, moagem e mistura, filtragem, ebulição, refrigeração e fermentação, nova filtragem e engarrafamento.
Sem segredos. Ou quase... Porque quando perguntei qual a diferença de ingredientes entre a Bohemia e a as suas irmãs obtive um sorriso como resposta.
Com tanto sucesso do Software Livre / Aberto (SLA) será que continua a fazer sentido existir na indústria tradicional segredos nos processos?
Penso que sim.
Antes de mais, temos de recuperar os conceitos base do que é a propriedade intelectual nos seus três elementos base: a ideia, a realização da ideia e a marca.
Num software, a ideia é a forma como pretendemos desenvolver uma determinada funcionalidade, por exemplo, o algoritmo para ordenar os dados numa tabela. A realização da ideia é a programação do código que a implementa. A marca é o nome sob o qual é disponibilizado ou comercializado. Temos mecanismos de protecção para cada um. Para a ideia temos a patente, para o código temos o direito de autor (e licenças associadas como a GPL) e para a marca temos o mecanismo de registo da mesma.
Cada um dos três elementos da protecção intelectual tem de ser analisado à luz da indústria em que está inserido. Para além desses três elementos, há o conhecimento que se tem dos processos de negócio internos. E esse é um conhecimento que mesmo na indústria do SL/A não se divulga.
Ao contrário do que indica o título desta crónica, o que o eng. Sobral protege é o processo de negócio e não a ideia ou a sua realização, tal como a Mandriva ou a Caixa Mágica protegem os seus processos de negócio e não o código-fonte do seu software.
Existe um segundo factor envolvido que é o centro de conhecimento. A Central de Cervejas foi comprada por uma empresa inglesa e o centro de decisão passou para o outro lado do canal da mancha. Mas enquanto o ``mestre cervejeiro'' for o eng. Sobral temos o conhecimento que nos permite crescer.
Tal como os centros de decisão, os centros de conhecimento devem ser mantidos em Portugal. Seja na indústria cervejeira, seja na indústria do software. O SL/A potencia a manutenção dos centros de conhecimento porque ninguém pode deslocalizar um software que é fruto do contributo de muitos. Brindo a isso com Bohemia.



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2007-09-24

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