Bits de Mudança

[20.1.2006] Comunidades: na década de 40 e hoje next up previous contents index
Seguinte: [3.2.2006] A semana em Acima: Ano de 2006 Anterior: Mundo empresarial   Conteúdo   Índice

[20.1.2006] Comunidades: na década de 40 e hoje


Comunidade: uma comunidade é um conjunto de pessoas com interesses mútuos que vivem no mesmo local e se organizam dentro de um conjunto de normas.
Comunidade: Agremiação de indivíduos que têm a mesma crença ou a mesma norma de vida.
As duas definições têm muito em comum mas separam-nas 60 anos. A primeira provém da Wikipedia (Janeiro de 2005) e a segunda da página 601 do dicionário enciclopédico Lello Universal da década de 40 que herdei de uma tia-avó.
Em 60 anos muito mudou. O termo comunidade representava nos finais da década de 40 um conceito relacionado com a componente geográfica: não era possível termos uma comunidade sem contacto físico.
Em 2006, quatro das das dez primeiras entradas que se obtêm quando se insere a palavra ``comunidade'' no Google são relativas a comunidades virtuais. O que mudou?
Antes de mais, os instrumentos para nos associarmos. Ou seja, a Internet e software que permitem através dela estabelecermos comunicação entre pessoas que partilham interesses comuns.
Manuel Castells teorizou sobre a importância das comunidades virtuais mas não é preciso ir muito longe para percebermos o que elas significam. O newsgroup sobre aquariofilia que costuma visitar? O forum Web sobre sexo? O canal de IRC sobre a sua escola ou universidade? A sala de Instant Messaging dedicada a hardware? O Sinédrio - blog sobre política - ou o Bitaites, sobre tecnologia? Comunidades.
O Software Livre / Aberto (SL/A) e os conteúdos Creative Commons foram dos movimentos que mais massa crítica ganharam com a disponibilização de comunidades virtuais.
As comunidades virtuais podem impulsionar movimentos, definir tendências ou destruir políticos. A criação de uma comunidade tem ainda uma particularidade: não requer especial investimento, podendo até ser gratuita se utilizarmos as ferramentas como o Blogspot ou a USENET.
Apesar de não requerer investimento, a criação de uma comunidade é uma tarefa complicada. Quatro regras condicionam o sucesso: massa crítica de potenciais participantes, personalização, divulgação e tecnologia adequada.
A primeira condição é clara. Não vale a pena tentar criar uma comunidade de amantes de gelado de baunilha que utilizam patins em linha porque apenas existirão três pessoas em Portugal que partilham esse gosto e as outras duas não têm acesso à Internet.
A segunda regra é menos conhecida. Deve particularizar, isto é, personalizar os membros da comunidade que devem ter um nome ou uma alcunha (nickname). Deve ainda ter mecanismos para evidenciar os mais activos (top das novidades, karma, top de utilizadores,...). Ao estimularmos o individualismo consolidamos o colectivo.
Sem divulgação também não conseguirá que os potenciais utilizadores cheguem até à sua comunidade. Daí ser hoje importante compreender os mecanismos dos motores de pesquisa. Um amigo psicólogo que tem uma página sobre crianças em risco não descansou enquanto não conseguiu que o seu blog aparecesse na primeira página do Google. Para isso, precisou de mudar o HTML, reforçar palavras no título do blog e incentivar links de sites amigos. ``Page rank'' a tanto obrigas.
Por fim, é necessário ter a tecnologia adequada. Ou seja, tecnologia que permita flexibilidade e funcionalidades no dia-a-dia da Comunidade. O SL/A acaba de ser o grande fornecedor de tecnologia para comunidades porque ele próprio cresce através desses tecnologias. Através da comunidade.
A semana passada estive numa cidade Beirã numas jornadas de informática. O almoço reuniu alguns dos oradores e saiu-me em sorte ficar ao lado do conservador / director do museu da cidade. A figura de conservador - atente-se ao nome: ``conservador'' – e uma proveta idade previam um almoço algo insípido. Puro engano. Passei o almoço a descobrir as maravilhas do World of Warcraft (WoW), um jogo de estratégia on-line, e a discutir as particularidades dessa comunidade: quem era quem (por exemplo, 80% das personagens femininas serem assumidas por homens), as horas a que cada tipo de utilizadores estavam ligados, etc...
O director do museu deverá espantar-nos não pelo facto de pertencer a uma comunidade on-line mas pelas vantagens competitivas que poderá retirar dessa sua experiência. Poderá lançar o museu para o futuro através de uma comunidade on-line ou pôr o seu conhecimento especializado em tapeçarias belgas do sec.XVI como centro de um blog. Ao contrário da década de 40, hoje o limite é apenas o confim do mundo, onde o TCP/IP não chega por wireless ou cobre.


next up previous contents index
Seguinte: [3.2.2006] A semana em Acima: Ano de 2006 Anterior: Mundo empresarial   Conteúdo   Índice
2007-09-24

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

© 2007 Paulo Trezentos | Design by Andreas Viklund