Bits de Mudança

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[17.3.2006] Um mundo pequeno: Morton, portugueses e FSI


Temos uma predisposição especial para dizer mal de outros portugueses.
Como foi recordado recentemente por Ferreira Fernandes e João Ferreira, na idade média o embaixador espanhol questionou D. Henrique de Meneses sobre algo que o intrigava. Não percebia porque é que sempre que quando interrogado um português sobre um seu compatriota, ele o aniquilava, enquanto os espanhóis faziam exactamente o contrário: sempre enalteciam as qualidades dos seus. D. Henrique respondeu: ``Por mentirem ambos''.
Andrew Morton é o braço direito de Linus Torvalds no desenvolvimento do kernel do Linux. Como é do conhecimento público, a versão de produção do Linux distingue-se pelo número central ser sempre par (por exemplo, o ``6'' em 2.6.11, número este designado por ``minor version'') e a versão de desenvolvimento tem esse número sempre ímpar (como o ``5'' em 2.5.12).
Sendo o Linus Torvalds responsável pela versão de desenvolvimento, Andrew Morton é, por sua vez, o responsável máximo pela integração das funcionalidades estáveis na versão de produção.
Numa troca de emails com Andrew Morton, referi por curiosidade que só tinha conhecimento da contribuição de um português para o Kernel do Linux, aliás, contribuição descrita aqui no Bits & Bytes e incidindo sobre a parte de IPv6. Morton respondeu-me que tinha contribuições (patchs) de mais três: Marcos Torres e Pedro Pinto, da Universidade de Coimbra, e José Gonçalves do INOV.
Em paralelo, e na sequência de uma crónica passada, tive contacto com outros dois portugueses que trabalham no Google : um na área da segurança - em Zurique - e outro no Adsense – em Dublin. A troca de ideias com eles confirmou o fascínio e o entusiasmo com que se entregam ao Google e às tarefas que desempenham.
Este espírito global presidiu ao Forum para a Sociedade de Informação (FSI) organizado pela UMIC em Aveiro, na 6ªfeira passada. Um espírito de desafio à capacidade dos portugueses em inovar.
O Forum destinou-se a estimular a discussão em torno das grandes questões da sociedade de informação, com sessões paralelas centradas em comércio electrónico, modernizar a administração pública, inclusão social e oportunidades empresariais. O balanço foi muito positivo gerando-se espaço de debate e verdadeira troca de ideias. Algumas intervenções no plenário estavam desenquadradas e seria evitáveis, mas a assinatura do protocolo com a universidade americana CMU a tanto o obrigava.
Outro protocolo assinado foi com a SUN Portugal, destinando-se à garantia de disponibilização pela mesma de Software Aberto / Livre (SL/A) como o StarOffice/OpenOffice. Existe um certo paradoxo em assinar algo que compromete a disponibilizar algo que já é livre. Vozes surgiram que apontaram que outras entidades deveriam ter participado nessa assinatura, como a ANSOL. Mas não é altura para crítica e não nos coloquemos na posição que o embaixador espanhol referiu a D.Henrique. É altura para perceber que ao governo interessa assinar protocolos de índole tecnológico com empresas multinacionais e, nesse sentido, a SUN é merecidamente um excelente caso.
Mas ao contrário da Microsoft, e em termos práticos, a SUN foi um representante da comunidade SL/A, e não o seu dono.
Assim, nada mais elogioso para todos os que trabalham nesta área saber que no âmbito do Plano Tecnológico o governo não conta apenas com uma via para o choque. Conta com várias e todos podem, e devem, dar o seu contributo.



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2007-09-24

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