Bits de Mudança

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[30.6.2006] Cozinhas & companhia


Quem casa, quer cozinha. Quem quer cozinha, provavelmente já foi ao IKEA. Esta cadeia multinacional sueca está dizimar o mercado nacional de fabricantes de cozinha (con)vencendo através de três tipos de argumentos: preços baixos, robustez e disponibilização de software 3D.
Os preços acabam por não ser tão baixos se tivermos em conta o preço do transporte e montagem.
A robustez é tentativamente comprovada por máquinas que na loja abrem e fecham gavetas de forma constante. De facto, isso não representa a realidade de cozinhas sujeitas a utilização por crianças de 5 anos que aplicam a sua energia de formas pouco previsíveis.
Excluídas as duas anteriores, resta o software 3D como elemento diferenciador.
O software disponibilizado no site da empresa permite desenharmos a nossa cozinha, vê-la em 3 dimensões e calcular o preço. Isto no conforto da nossa casa, de forma intuitiva e com a flexibilidade de a podermos modificar ao nosso gosto. Ele desperta o arquitecto de interiores que existe dentro de nós.
Estarão as empresas portuguesas fabricantes de cozinhas condenadas ao fracasso no mundo globalizado dos IKEA?
Dependem apenas delas. Para terem sucesso não só terão de disponibilizar software 3D, como ultrapassar o existente em alguns aspectos.
Mas uma empresa portuguesa não terá capacidade de o fazer sozinha. Precisa de se associar com outras e criar o software.
Como? Desenvolvendo - ou contratando o desenvolvimento - e disponibilizando-o sob licença de Software Livre / Aberto (SL/A). Desta forma garantirá que todos os que participam no desenvolvimento podem alterá-lo, personalizado e melhorá-lo. Garantirá que entidades externas contribuam com novas funcionalidades. Garantirá que o software será melhorado.
Também é verdade que os concorrentes poderão utilizá-lo mas então ficará à responsabilidade de cada um criar as vantagens competitivas que o diferencie.
A segunda parte é mais difícil. Estando ao mesmo nível, como ultrapassá-los? Contra a globalização, aposte-se na localização.
Segue um exemplo.
A cadeia de lojas atrás referida disponibiliza a útil funcionalidade de transferência do ficheiro com a cozinha idealizada para o servidor central. Contudo, quando se tenta fazer essa transferência no site português, nada acontece.
Quando contactada a loja, a senhora do atendimento ao cliente informou que tal não era possível. Tão pouco era possível levar a cozinha em CD ou pen USB à loja. Afirmou ainda que já tinham tido reclamações e tinham comunicado ...a ``eles''. ``Eles'', subentenda-se, é a cadeia multinacional.
Tentei então fazer a submissão via o site espanhol da empresa. As mesmas páginas, as mesmas imagens mas uma língua e um resultado diferente. A transferência funcionou sem qualquer problema. O passo seguinte foi ir à loja e conseguir com sucesso carregar o ficheiro da cozinha para o PC do funcionário.
Para uma multinacional, um problema no sistema de informação da loja portuguesa só será resolvido quando os grandes mercados (como EUA ou Espanha) estiverem de férias.
Enquanto a empregada do atendimento tratar a empresa onde trabalha por ``eles'' significa que não se sente parte da solução.
Ao contrário deste exemplo, a ``localização'' não é mais do que usar a vantagem de estar perto do cliente. Não só geograficamente mas em termos culturais.
E as empresas portuguesas não se podem ficar pelo software 3D. Têm de utilizar as TI sempre que representarem um valor acrescentado. Isso é que é o choque tecnológico.
Este choque tem igualmente que ser posto em prática noutras indústrias. É preciso inovar associando-nos e partilhando os custos do desenvolvimento da tecnologia. Não se fazem novos bolos com receitas antigas.
Escrevo estas linhas de Barcelona onde tomei contacto com o projecto das universidades Catalãs que visa o desenvolvimento conjunto de uma infra-estrutura de eLearning. Uma infra-estrutura que cada uma explorará à sua maneira. Financiada pelo governo regional sob uma única condição: ser SL/A. Estas universidades e o governo regional perceberam que têm de partilhar o conhecimento.
Para não ficarem a ver passar ``cozinhas''.


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2007-09-24

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